por Bernardo Ribeiro da Cunha, 2026
Para a Igreja Católica, a pertença à maçonaria continua proibida aos fiéis católicos. Não se trata de uma relíquia oitocentista, um capricho disciplinar, ou uma simples incompreensão entre instituições que diriam o mesmo por palavras diferentes. A Santa Sé reiterou que os princípios maçónicos são inconciliáveis com a doutrina católica. O fiel inscrito numa associação maçónica encontra-se em estado de pecado grave e não deve receber a Sagrada Comunhão. Não há, portanto, dupla pertença pacífica entre a iniciação maçónica e a plena comunhão católica.
Convém começar por aqui, porque é frequente transformar divergências em mal-entendidos. Católicos e maçons falam de fraternidade; logo, estariam no mesmo terreno. Falam de aperfeiçoamento moral; logo, caminhariam para o mesmo fim. Invocam Deus ou um Ser Supremo; logo, professariam a mesma verdade em linguagens diferentes. É precisamente aqui que reside o erro.
A Igreja não é uma sociedade moral genérica, uma escola de aperfeiçoamento interior, ou uma federação de homens de boa vontade. Confessa Jesus Cristo como Filho de Deus e Salvador do mundo, caminho, verdade e vida. A sua fé não repousa num consenso simbólico, mas numa Revelação: Deus entrou na história, falou, encarnou, morreu e ressuscitou. Cristo não é uma metáfora entre outras, nem uma grande luz num templo espiritual mais vasto. É o Senhor do tempo e da história.
O juízo sobre os princípios não autoriza um juízo temerário sobre as pessoas. Há maçons honrados e alguns serão sinceramente religiosos; reconhecê-lo não contradiz a doutrina católica. A Igreja ensina que aqueles que, sem culpa própria, ignoram o Evangelho de Cristo e a Sua Igreja, mas procuram sinceramente a Deus e, sob a ação da graça, se esforçam por cumprir a Sua vontade segundo a consciência, podem alcançar a salvação; a Providência não lhes nega os auxílios necessários (Lumen gentium, 16; Catecismo da Igreja Católica, 847-848). A sinceridade de uma convicção não determina, por si só, a sua verdade; e o juízo sobre as pessoas deve ser confiado à justiça e à misericórdia de Deus (Catecismo da Igreja Católica, 1861).
A maçonaria moderna formou-se nas Ilhas Britânicas entre os séculos XVII e XVIII, no mundo criado pela Reforma protestante e pelos conflitos europeus de religião. Não existe uma autoridade maçónica mundial que fale por todas as lojas maçónicas. Há obediências regulares, de matriz anglo-americana, que exigem a crença num Ser Supremo e proíbem a discussão de religião e política em loja; e há obediências liberais ou adogmáticas, que admitem crentes e não crentes e intervêm no debate público.
A rutura da unidade religiosa do Ocidente, as guerras civis britânicas, e a Guerra dos Trinta Anos mostraram o elevado custo de transformar a divergência teológica em inimizade secular. As “Constituições dos Maçons”, publicadas por James Anderson em 1723, propuseram uma confluência em torno da «religião em que todos os homens concordam», deixando a cada um as suas opiniões particulares, para que a loja se tornasse um «centro de união». Era uma resposta que parecia corresponder à necessidade da época para alcançar a paz: captar o que parecia comum às diferentes religiões e remeter as diferenças dogmáticas para a consciência privada.
É aqui que a solução histórica se liga ao Iluminismo e ao racionalismo. Perante religiões que divergiam sobre dogmas, sacramentos e autoridade, procurou-se uma faculdade supostamente comum a todos: a razão. Caberia a esta reconhecer uma religião universal mínima: a existência de uma ordem moral, a obrigação de ser honrado, a sociabilidade e, na Maçonaria regular, um Ser Supremo – o Grande Arquiteto do Universo – para além de tolerância religiosa, mérito pessoal, civilidade, educação científica e aperfeiçoamento do indivíduo e da sociedade. As doutrinas reveladas não tinham de ser negadas pelo maçom na sua vida privada; eram, porém, afastadas do espaço comum da loja como «opiniões particulares». A razão deixava assim de ser apenas um instrumento de diálogo e passava a selecionar o conteúdo religioso admissível à fraternidade universal. Este procedimento é racionalista num sentido preciso: a Revelação é recebida apenas na medida em que pode ser reconduzida ao que todo o homem razoável aceitaria, sem depender de uma fé concreta.
Deste modo, a maçonaria alinhou-se numa matriz que Leão XIII, na encíclica Humanum genus (1884), qualificou de naturalista: a razão humana torna-se medida suprema e a Revelação fica subordinada a uma moral comum. O Magistério católico não condena a investigação racional; recusa no entanto uma razão autossuficiente que só admite, da religião, aquilo que ela própria consegue validar.
O problema não está, portanto, na procura da paz civil nem no uso da razão, bens que a Igreja igualmente afirma. Está na passagem de um método de convivência para um critério de verdade. Para a fé católica, a razão pode ser um instrumento para o conhecimento de Deus, discernimento da lei natural e adesão à Revelação; não pode, contudo, colocar-se acima desta, separando um núcleo universal aceitável de um resíduo dogmático dispensável. Aquilo que a Maçonaria põe entre parênteses para criar união entre os homens é, para a Igreja, o centro da fé: Deus revelou-se na história, e em Jesus Cristo encontra-se a plenitude da Revelação.
O juízo da Igreja começou com Clemente XII em 1738, foi aprofundado por Leão XIII e reiterado pela Congregação para a Doutrina da Fé em 1983 e 1985. O problema central identificado reside na relativização da verdade e numa pertença simbólica capaz de transformar a relação do cristão com a fé. Em 13 de novembro de 2023, o Dicastério para a Doutrina da Fé, com aprovação do Papa Francisco, voltou a declarar proibida a filiação de católicos na Maçonaria devido à irreconciliabilidade entre as duas doutrinas: permanecem a proibição moral e a exclusão da Comunhão enquanto persistir conscientemente a situação.
Dizer que a Maçonaria não é uma religião não resolve a dificuldade. Uma instituição pode não possuir um credo e, ainda assim, formar as consciências por iniciações, juramentos, graus, ritos, alegorias, símbolos e uma pedagogia de aperfeiçoamento.
Também a fraternidade é diferente. A maçónica nasce de uma aliança iniciática; a cristã nasce da criação e da redenção. Não é apenas horizontal: tem raiz em Deus. Uma iniciação paralela não pode, por isso, apresentar-se como complemento espiritual neutro do Batismo, do Crisma e da Eucaristia. A fraternidade não revoga a verdade. Para o cristianismo, só a verdade pode dar à fraternidade o seu fundamento último.
A história acrescentou razões políticas às divergências teológicas. Em países de tradição católica, correntes maçónicas participaram em programas e atividades de secularização militante e anticlericalismo.
Nos nossos dias, as divergências bioéticas entre a maçonaria e a Igreja proveem de obediências maçónicas liberais, pois as obediências regulares evitam normalmente pronunciamentos políticos. Em 2007, o grão-mestre do Grande Oriente Lusitano apoiou o «sim» no referendo português sobre a interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas. Em 2024, o Grande Oriente de França saudou a sua proteção constitucional como uma conquista de emancipação. A mesma obediência apoiou a «ajuda ativa a morrer» e, em 2026, voltou a apresentar a eutanásia e o suicídio assistido como questões de liberdade, dignidade e laicidade.
A incompatibilidade não impede o diálogo nem a cooperação em objetivos concretos. A Igreja pode reconhecer o bem e colaborar com quaisquer cidadãos na defesa da paz, da justiça ou dos mais vulneráveis.
Mas o diálogo não é equivalência doutrinal e a cooperação civil não é comunhão espiritual. No fundo, a questão é simples: para a Maçonaria, Cristo pode ser uma grande luz no templo simbólico da humanidade; para a Igreja Católica, é o Senhor, Deus vivo e ressuscitado. E essa diferença faz toda a diferença.
Bibliografia:
- Anderson, James, The Constitutions of the Free-Masons, Londres, 1723.
- Grande Loja Unida de Inglaterra, «1723 Constitutions»; Information for the Guidance of Members of the Craft, 2024; Equality Policy, 23 de julho de 2026.
- Leão XIII, carta encíclica Humanum genus, 20 de abril de 1884.
- Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração sobre as associações maçónicas, 26 de novembro de 1983; «Irreconcilability between Christian Faith and Freemasonry», 1985.
- Dicastério para a Doutrina da Fé, resposta a D. Julito Cortes sobre a filiação de católicos na Maçonaria, 13 de novembro de 2023.
- Código de Direito Canónico, cânones 1315, 1349 e 1374.
- Concílio Vaticano II, constituição Lumen gentium, n.º 16; Catecismo da Igreja Católica, n.os 847-848.
- Catecismo da Igreja Católica, n.os 2270-2283; Dicastério para a Doutrina da Fé, declaração Dignitas infinita, 8 de abril de 2024, n.os 47 e 51-60.
- Rádio e Televisão de Portugal / Lusa, «Grão Mestre da Maçonaria António Reis espera vitória do “sim”», 2 de fevereiro de 2007.
- Monteiro, Henrique, «220 anos: velhos valores, novas causas», Revista Grémio Lusitano, n.º 24, 2022, pp. 9-11.
- Grande Oriente de França, comunicados sobre a interrupção voluntária da gravidez, 8 de março de 2024, e sobre a ajuda a morrer, 25 de junho de 2026.
- Grande Oriente de França, programa da Jornada Cidadã da Comissão Nacional de Saúde Pública e Bioética, 29 de junho de 2024; Les enjeux actuels de la pensée universaliste, 2021.
- Jacob, Margaret C., Living the Enlightenment, 1991;
- Stevenson, David, The Origins of Freemasonry, 1988;
- Ventura, António, Uma História da Maçonaria em Portugal, 2013