por Manuel Carneiro da Frada, 2025

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1. O trabalho constitui uma realidade profundamente humana, expressão da dignidade da pessoa. Representa uma fonte de recursos para sustento próprio e da própria família, mas é, do mesmo modo, ocasião de desenvolvimento da sua personalidade, vínculo de união com os outros e forma de participação, tanto no desenvolvimento e melhoria da sociedade, como no progresso da humanidade. Expressa a autoridade do homem sobre a natureza e a sua superioridade sobre os processos sociais: a sua capacidade de os orientar, com a sua inteligência e a obra das suas mãos, de acordo com os fins que se propõe, para incrementar o bem pessoal, ou dos demais. Compreende uma vertente pessoal-antropológica, por isso que promove de modo muito eficaz a maturidade, a realização e o aperfeiçoamento de cada um; e apresenta uma evidente dimensão familiar e social, contribuindo poderosamente para estabilidade e a segurança económica das famílias, assim como para a estruturação da vida social. É um espaço de encontro de cada um com os problemas, as necessidades e as preocupações dos seus iguais. Reveste-se obviamente de uma eminente dimensão moral, porque através dele o homem é convocado a realizar o seu chamamento a uma vida honrada e “boa” (eticamente valiosa), e assim, a adquirir e cultivar no seu âmbito as virtudes humanas por esta última co-implicadas.

Semelhante perspectiva contrasta com o difundido entendimento que vê no trabalho uma escravidão, uma alienação, ou, em qualquer caso, uma incómoda inevitabilidade da condição humana: uma concepção, esta, que procede, em parte, da confusão entre trabalho e fadiga, assim como da frequente interligação entre ambas estas realidades estabelecida na cultura greco-romana. Diferentemente, no âmbito do pensamento cristão, o trabalho humano é uma participação na obra criadora de Deus, com vista à transformação/aperfeiçoamento do mundo.

2. O sentido antropológico, social e moral do trabalho conduz a que o trabalho deva ser bem feito, com competência profissional e de forma tecnicamente bem acabada; cumprindo as obrigações sociais ou legais que o acompanham, honrando com lealdade os compromissos assumidos e respeitando as regras deontológicas que ordenam o exercício das profissões. A dignidade do trabalho resulta precisamente de que constitui a forma por excelência de humanização do mundo, modo esse que opera através do envolvimento da pessoa, das suas capacidades, intelectuais ou físicas, e das múltiplas dimensões da sua personalidade. Todo o trabalho, de qualquer natureza, é assim, por si mesmo, digno; carece, mesmo se tido comummente por “inferior”, de um justo reconhecimento social. O seu valor intrínseco manifesta-se, por igual, em qualquer modalidade que assuma, mesmo se não for remunerado, pois não depende desta. Por contraste, as actividades desonestas ou ilícitas não podem ser objecto desse merecimento.
O trabalho não se confunde com o “emprego” (o mero “trabalho-emprego”), ao qual, demasiadas vezes, é degradado. É redutor pensá-lo só, ou principalmente, enquanto fonte de recursos (estes susceptíveis até, nas sociedades actuais, de serem conseguidos através de vários tipos de subsídios substitutivos). Constituindo, como se viu, uma forma de realização da própria humanidade e um contributo pessoal para com a sociedade, reclama uma atenção suficientemente integradora das suas várias dimensões por parte de entidades públicas ou privadas; e, assim, formas adequadas de conciliação com outras vertentes da vida como a família e o descanso, e modos de cooperação intergeracional adequada, tal como o respeito pelos bens e interesses comuns (ambiente, etc.).
São múltiplos os novos e específicos desafios que o trabalho enfrenta hoje, fruto, em especial, da sofisticação tecnológica, dos avanços da inteligência artificial, da robótica, da digitalização, todos eles potenciados pela globalização: permanecendo uma realidade humana fundamental, mudam as formas de organização e a cultura do trabalho. Como em outras épocas, haverá de saber reinventar-se e aperfeiçoar-se. De modo a evitar o perigo de uma nefasta impessoalização das relações laborais e da vida das empresas, mas abrindo-se também a novos horizontes intercolaborativos em ordem a uma mais adequada satisfação das necessidades humanas, e ao que poderia designar-se uma “ecologia humana integral”.

3. Como realidade social e humana fundamental que é, não admira que as grandes ideologias apresentem perspectivações diversas do trabalho e das prementes questões de justiça social que ele é susceptível de colocar. Entre elas avulta historicamente o marxismo. Dentro desta concepção rigidamente materialista, o trabalho constituiu sempre, inexoravelmente, um factor de exploração e uma causa de alienação do homem às mãos do capital, do qual a ditadura do proletariado haveria de libertá-lo, rumo a uma utópica sociedade sem exploração do homem pelo próprio homem. Este tipo de orientação perdura ou sobrevive hoje, de modo mais ou menos sofisticado ou soft, em diversos âmbitos associados ao wokismo.

Já para uma visão capitalista-liberal, o trabalho é meramente instrumental de uma economia assente na busca desenfreada de produtividade e de lucro, na redução de custos e na globalização dos mercados, hoje também crescentemente apoiada em progressos científicos e tecnológicos. De harmonia com uma perspectiva utilitarista-económica deste tipo, o trabalho encontra-se inevitavelmente exposto a novas, contemporâneas e dolorosas formas de alienação no trabalho e pelo trabalho, de que são actualmente exemplo o trabalho infantil, o trabalho precário, o trabalho clandestino ou o trabalho (manifesta ou iniquamente) sub-remunerado, mas também o “super-trabalho” e o “trabalho-carreira” (que, ao roubar o espaço necessário às dimensões familiares e pessoais de cada um, se apresenta de igual forma intrinsecamente desordenado do ponto de vista ético). O contexto actual do nihilismo valorativo pós-moderno favorece-o, ao tornar as sociedades abúlicas perante estas deturpações.
É, portanto, essencial harmonizar entre si trabalho e capital, afirmando a recíproca complementaridade entre ambos. Cada geração é chamada a responder a essa exigência. Ela traduz, simultaneamente, um importante desafio de uma cidadania responsável e um objectivo precípuo da actividade política. Uma forma privilegiada de lhe responder consiste em assegurar uma justa remuneração do trabalho e, mesmo, em promover a participação dos trabalhadores na propriedade dos recursos económicos, na sua gestão ou nos frutos da actividade por eles exercida. Na base encontra-se um direito de todos a um trabalho digno, e às condições imprescindíveis para o assegurar, que o direito de/à propriedade de outros não deve obscurecer, como corresponde a uma perspectiva solidarística, de afectação dos bens e recursos ao serviço de todos (segundo o mote de uma economia ao serviço do homem). É, aliás, inteiramente falso atribuir só ao trabalho, ou só ao capital, aquilo que apenas se consegue com o recurso de ambos.

Em qualquer caso, o trabalho tem sempre uma prioridade intrínseca sobre o capital, desde logo porque é ele, indubitavelmente, a causa eficiente primária – dir-se-á de algum modo “criadora” – de toda a modificação humanizadora do mundo e do seu progresso económico ou social (sendo o capital um mero instrumento nas mãos dessa causa “humana”). Nesse sentido pode dizer-se que o principal e o decisivo factor de produção é – como não pode deixar de ser – o próprio homem. De resto, as transformações profundas que os nossos tempos evidenciam valorizam crescentemente a criatividade individual, a capacidade para criar relações, as aptidões para integrar equipas, multidisciplinares ou não, em ordem à prossecução de objectivos comuns, assim como, em geral, a importância de soft skills diferenciados. Assiste-se, em conformidade, a uma inexorável perda de relevo económico da força operativa-mecânica de trabalho em benefício de uma (re)valorização das qualidades primaria e intrinsecamente pessoais do homem e da mulher trabalhadores, do “ter” em relação ao “saber”.

4. Oferece-se pois, hoje como em qualquer outra época histórica, mais uma vez, espaço para uma (re)dignificação do trabalho, a expressar um humanismo à altura das circunstâncias actuais. Que para tal harmonize a capacidade racional e transformadora da pessoa com a dimensão social da sua existência; que possibilite o seu progresso pessoal e o congracie com o progresso social, que lhe permita realizar no trabalho o seu chamamento interior à liberdade, à veracidade, e a uma ética de serviço, como corresponde ao homem protagonista da história e por ela responsável; que recupere, instaure ou alargue para o efeito uma cultura personalista e uma estética do trabalho; que se abra, mesmo, à possibilidade de uma “alma” e ao desenvolvimento, de igual forma, de uma espiritualidade do trabalho, a reflectir contemplativamente a dignidade transcendente do ser humano (para lá, também, do espaço cultural cristão onde tem as suas raízes mais profundas: l´homme qui dépasse infiniment l´homme (Pascal)). Que para tal considere integradamente o trabalho, e o seu quotidiano, em todas as suas dimensões, valorizando a sua verdade, a sua bondade e a sua beleza.

Bibliografia:

  • Antimo Negri (Coord.), Filosofia del lavoro: storia antologica, 7 vols., Marzorati Editore, 1981 (colectânea de textos).
  • Compêndio da Doutrina Social da Igreja, Principia, Cascais, 2022;
  • J. B. Ciulla – The Working Life. The Promise and Betrayal of Modern Work, Times Books, New York, 2000;
  • Jon Borobia, Miguel Luch, José Ignacio Murillo, Eduardo Terassa (ed.), Trabajo y Espíritu, Pamplona, 2004;
  • Manuela Silva e Marta Lynce de Faria (coord.), O Futuro do Trabalho/Contributos de gestores e académicos para um trabalho digno e inclusivo, Aese, Lisboa, 2021 (e Prólogo, por Raul Diniz);
  • Rafael Corazón González, Filosofía del trabajo, Rialp; Madrid, 2007.
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