por Francisco Carmo Garcia, 2025

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1. O poder parece ser um fenómeno ubíquo, principalmente nos nossos dias, em que se tornou um exercício frequente descortinar “relações de poder” que pareciam estar escondidas nas mais variadas dimensões da nossa existência social. Ao mesmo tempo, quando falamos de “poder” fazemo-lo com o habitual recurso a termos que, apesar de substancialmente distintos, surgem na conversação comum como sinónimos: falamos de autoridade, de influência, de controlo, de eminência ou supremacia, entre tantos outros. Parece justificado dizer que existe uma certa confusão conceptual relativamente ao termo “poder” – o objecto está em todo o lado, no entanto sem uma definição que lhe confira inteligibilidade concreta.

2. Foi no sentido de contornar esta confusão conceptual que se viraram as atenções de quem escreveu sobre o fenómeno do poder ao longo do último século. Robert Dahl propôs uma “ideia intuitiva de poder” como a capacidade de um certo agente determinar o comportamento de outro: “A tem poder sobre B na medida em que consegue com que B faça algo que B de outra maneira não faria”. Esta definição vai ao encontro da proposta anterior de Max Weber, que fazia do poder “a probabilidade de que um agente, dentro de uma relação social, esteja numa posição para cumprir a sua vontade apesar da resistência”. São duas definições que fazem do poder um fenómeno relacional, manifestado nas relações sociais – não só entre pessoas de carne e osso, mas também entre agrupamentos humanos como empresas, organizações sem fins lucrativos, Estados, alianças de Estados, etc. É também no mesmo sentido que Michel Foucault, na sua influente análise das estruturas de poder, fala em poder como o poder que “certas pessoas exercem sobre outras”. Na ordem política, o poder assim entendido surge naturalmente com uma essência paradigmática: o comando.

3. Temos, como primeira aproximação ao fenómeno de poder, uma definição relacional. É, por isso, um fenómeno eminentemente social. Foi também desse modo que Thomas Hobbes, o primeiro grande articulador sistemático da ideia de poder, explicou as relações interhumanas na sociedade como relações de poder. No entanto, Hobbes decisivamente separava as consequências sociais das relações de poder – isto é, as dinâmicas de poder que se manifestam num espaço habitado por seres humanos – e o fenómeno do poder per se. Sobre o poder em si, Hobbes definia-o como os “meios presentes” para “obter um bem futuro”. Ou seja, como uma capacidade ou possibilidade de agir em torno de um determinado objectivo – em Hobbes, a possibilidade de um agente concretizar um determinado desejo ou apetite. O poder reduzir-se-ia, então, aos meios disponíveis para concretizar um determinado desejo. Como o ser humano é um animal dos desejos, que se move permanentemente em torno de um objecto do seu desejo ou se afasta de um objecto da sua aversão, então o poder vai ser considerado para Hobbes como o meio para o homem prosperar na vida – em suma, para alcançar a felicidade Desse modo, todo o comportamento humano pode ser resumido, para Hobbes, numa “perpétua e incansável busca de poder e mais poder”. Servindo de denominador comum para explicar o comportamento humano, o poder serve assim como o mecanismo explicativo para todas as relações humanas: desde as relações interhumanas às relações soberano-súbdito.

4. Nesta imagem hobbesiana do homem como ser movido pela busca permanente do poder, surge-nos a consequente imagem do estado de natureza como palco para o choque entre homens que buscam incessantemente o poder. Estes chocam como bolas de bilhar. Na mesma lógica, o que impede estes mesmos homens de chocar quando deixam o estado de natureza para uma comunidade política é precisamente o facto de que o maior poder do Estado constrange o seu menor poder. O Estado moderno surge, nesta imagem, como o maior poder possível, e por isso “restringe” e “ordena” os movimentos das suas partes constitutivas. As relações de poder ditam assim as relações sociais, que reflectem invariavelmente uma relação de forças newtoniana. Não é possível ignorarmos o quanto esta imagem do poder como factor determinante nas relações entre os homens deve a uma imagem materialista e mecanicista do todo: a uma imagem do todo como um composto de corpos de matéria em movimento permanente, chocando-se continuamente, cuja única forma de ordenação do seu movimento teria de passar forçosamente por um mecanismo eminentemente físico – neste caso, o poder. O conceito de poder parece encontrar a sua centralidade na filosofia política a partir do momento em que a física newtoniana substitui a física aristotélica.

5. É dessa forma que a modernidade tipicamente entende o Estado como um palco para relações de poder, assim como as relações entre os Estados como relações determinadas pela necessidade de um equilíbrio de poder. Sobre estas últimas, David Hume questionou o facto de apenas na modernidade se olhar para as relações entre unidades políticas através da abordagem do equilíbrio de poder. Quanto à primeira, Montesquieu haveria de fazer do Estado o palco para um equilíbrio constante entre os diferentes “poderes”, que se freiam uns aos outros, inaugurando a ideia peculiarmente moderna da “separação de poderes”, desenvolvida precisamente para evitar o abuso de poder que o Estado hobbesiano teoricamente significava.

6. Seja como capacidade de alcançar bens futuros ou como capacidade de concretizar a própria vontade, seja como capacidade de determinar o comportamento de outrem, o conceito de poder surge como fenómeno quantificável e possível de medir, para além de essencialmente eficiente: a sua existência produz efeitos tangíveis. Fá-lo sem ter necessária e logicamente em consideração qualquer alusão ou preocupação moral. O poder é, nesse aspecto, moralmente neutro; não podia ser de outra maneira, já que surge como um fenómeno eminentemente físico. Por isso encaixou como uma luva na cosmovisão moderna, despida desde o início das considerações teleológicas quer da filosofia aristotélica, quer do cristianismo. Compreendemos assim o adágio popular, tantas vezes usado pejorativamente quando alguém “quer o poder pelo poder”: o poder parece bastar-se a si mesmo.

Bibliografia:

  • DAHL, Robert. “The Concept of Power”. Behavioral Science (1957), vol. 2 n.º 3, 201-215.
  • HOBBES, Thomas. Leviathan, or Matter, Form, and Power of a Common-Wealth Ecclesiasticall and Civill. Ed. Michael Oakeshott. Oxford: Clarendon Press .
  • HUME, David. Political Essays. Ed. Knud Haakonsen. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
  • JOUVENEL, Bertrand de. Du Pouvoir. Histoire naturelle de sa croissance. Paris: Librairie Hachette, 1972.
  • MONTESQUIEU, Charles de Secondat. L’Esprit des lois. Ed. Robert Derathé. Paris: Garnier, 2023.
  • WEBER, Max. Economy and Society: an outline of interpretative sociology. Trad. Guenther Roth e Claus Wittich. Berkeley: University of California Press, 1978.
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